Ação da Substância - Veklury

Bula Veklury

Princípio ativo: Rendesivir

Classe Terapêutica: Antivirais para Sistema Respiratório, exceto para Influenza

Revisado por Isabelle Baião de Mello Neto (CRF-MG 24309)

Qual a ação da substância do Veklury?

Resultados de Eficácia


Estudos clínicos em pacientes com COVID-19

Estudo NIAID ACTT-1 (CO-US-540-5776)

Um estudo clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou a administração de 200 mg de Rendesivir uma vez por dia, no primeiro dia do tratamento, seguido de 100 mg de Rendesivir, uma vez por dia, durante um período de até 9 dias (um total de até 10 dias de tratamento administrado por via intravenosa) em pacientes adultos hospitalizados com COVID-19 com evidência de comprometimento do trato respiratório inferior.

O estudo incluiu 1.062 pacientes hospitalizados:
  • 105 (9,9%) pacientes com doença leve/moderada (10% em ambos os grupos de tratamento) e 957 (90,1%) pacientes com doença grave (90% em ambos os grupos de tratamento).

Doença leve/moderada foi definida como SaO2 > 94% e frequência respiratória < 24 incursões/minutos sem administração suplementar de oxigênio; doença grave foi definida como SpO2 ≤ 94% em ar ambiente, uma frequência respiratória ≥ 24 incursões//minutos, a necessidade de oxigenação, ou a necessidade de ventilação mecânica. Um total de 285 pacientes (26,8%) (n=131 recebendo Rendesivir) estavam em ventilação mecânica ou oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO). Os pacientes foram randomizados numa proporção 1:1, estratificados por gravidade da doença no momento da inclusão, para receberem Rendesivir (n=541) ou placebo (n=521), mais tratamento padrão.

A idade média no início do estudo era de 59 anos ( 36% dos pacientes com 65 anos ou mais); 64%. dos pacientes eram do sexo masculino; 53% eram de raça caucasiana; 21% eram de raça negra e 13% eram de raça asiática. As comorbidades mais frequentes foram hipertensão (51%), obesidade (45%), e diabetes mellitus tipo 2 (31%); a distribuição das comorbidades foi similar entre os dois grupos de tratamento.

Aproximadamente 38,4% (208/541) dos pacientes receberam um ciclo de tratamento de 10 dias com Rendesivir.

O desfecho primário foi o tempo de recuperação até 29 dias após a randomização, definida como alta hospitalar (com ou sem limitações da atividade e com ou sem necessidade de oxigênio no domicílio) ou hospitalização, mas sem necessidade de administração suplementar de oxigênio e sem necessitar de assistência médica contínua. Numa análise realizada após todos os pacientes serem seguidos por 14 dias, o tempo de recuperação mediano na população geral foi de 10 dias no grupo de Rendesivir comparativamente com 15 dias no grupo do placebo (razão de taxa de recuperação 1,29 [IC de 95%: 1,12–1,49]; p<0,001). Foram observadas diferenças relevantes nos resultados dos dois braços.

Entre os pacientes com doença leve/moderada na inclusão do estudo (n=105), a mediana do tempo de recuperação foi de 5 dias nos grupos de Rendesivir e placebo (razão de taxa de recuperação 1,22 [IC de 95%: 0,82-1,81]); as chances de melhora na escala ordinal no grupo de Rendesivir no dia 15, quando comparadas com o grupo placebo, foram as seguintes: razão de probabilidade 1,46; [IC de 95%, 0,71-2,97].

Entre os pacientes com doença grave na inclusão do estudo (n=957), a mediana do tempo de recuperação foi de 11 dias no grupo de Rendesivir e de 18 dias no grupo do placebo (razão de taxa de recuperação 1,31 [IC de 95%: 1,12–1,52]; p<0.001; Tabela 1); as chances de melhora na escala ordinal no grupo de Rendesivir no Dia 15, quando comparadas com o grupo placebo, foram as seguintes: razão de probabilidade 1,56; [IC de 95%, 1,24-1,95].

No geral, as chances de melhora na escala ordinal foram maiores no grupo Rendesivir no dia 15, quando comparadas com o grupo do placebo (razão de probabilidade, 1,54; [IC de 95%, 1,25-1,91], p <0,001).

No geral, a mortalidade no dia 29 foi de 11% para o grupo de Rendesivir e 15% para o grupo placebo (razão de risco, 0,73; [IC de 95% 0,52- 1,02; p = 0,068). Uma análise post-hoc da mortalidade no dia 29 pela escala ordinal é relatada na Tabela 1.

Tabela 1: Resultados de mortalidade no Dia 29 pela escala ordinala no início do estudo do NIAID ACTT-1

-Escala Ordinal no início do estudo
4567
Sem oxigenaçãoRequer oxigenação de baixo fluxoRequer oxigenação de alto fluxo ou ventilação mecânica não invasivaRequer ventilação mecânica ou ECMO
Rendesivir (N=75)Placebo (N=63)Rendesivir (N=232)Placebo (N=203)Rendesivir (N=95)Placebo (N=98)Rendesivir (N=131)Placebo (N=154)
Mortalidade Dia 294,14,84,012,721,220,421,919,3
-Escala Ordinal no início do estudo
4567
Sem oxigenaçãoRequer oxigenação de baixo fluxoRequer oxigenação de alto fluxo ou ventilação mecânica não invasivaRequer ventilação mecânica ou ECMO
Rendesivir (N=75)Placebo (N=63)Rendesivir (N=232)Placebo (N=203)Rendesivir (N=95)Placebo (N=98)Rendesivir (N=131)Placebo (N=154)
Razão de riscob (IC de 95 %)0.82 (0.17, 4.07)0,30 (0,14, 0,64)1,02 (0,54, 1,91)1,13 (0,67, 1,89)

ECMO – oxigenação por membrana extracorpórea.
a Não é uma análise pré-especificada.
b As taxas de risco para subgrupos de pontuação ordinal da linha de base são de modelos de risco proporcionais de Cox não estratificados.

QT

Os atuais dados clínicos e não clínicos não sugerem um risco de prolongamento do intervalo QT, contudo este não foi totalmente estudado nos seres humanos.

População pediátrica

Ver itens Qual a ação da substância Rendesivir? - Características farmacológicas e Como usar o Rendesivir?, para informação sobre uso pela população pediátrica.

Características Farmacológicas


Propriedades farmacodinâmicas

Grupo farmacoterapêutico

  • Antivirais para uso sistémico, antivirais de ação direta, outros antivirais, código ATC: ainda não atribuído.

Mecanismo de ação

O Rendesivir é um pró-fármaco nucleotídeo que é metabolizado nas células hospedeiras para formar o metabólito nucleosídeo trifosfato farmacologicamente ativo. O trifosfato de Rendesivir atua como análogo da adenosina trifosfato (ATP) e compete com o substrato natural de ATP pela incorporação nas cadeias de RNA nascentes pela RNA polimerase dependente do RNA do SARS-CoV-2, o que resulta na terminação prematura da cadeia durante a replicação do RNA viral.

Atividade antiviral

O Rendesivir exibiu atividade in vitro contra um isolado clínico de SARS-CoV-2 em células epiteliais primárias das vias respiratórias humanas com uma concentração eficaz de 50% (EC50) de 9,9 nM após 48 horas de tratamento. Os valores de EC50 de Rendesivir contra o SARS-CoV-2 em células Vero foi de 137 nM às 24 horas e de 750 nM às 48 horas pós-tratamento. A atividade antiviral de Rendesivir foi antagonizada por fosfato de cloroquina de forma dose-dependente quando os dois medicamentos foram co-incubados em concentrações clinicamente relevantes em células HEp-2 infetadas com o vírus sincicial respiratório (respiratory syncytial virus, VSR). Foram observados valores de EC50 de Rendesivir mais elevados com o aumento das concentrações de fosfato de cloroquina. O aumento das concentrações de fosfato de cloroquina diminuiu a formação de trifosfato de Rendesivir nas células epiteliais brônquicas humanas normais.

Resistência

A determinação do perfil de resistência ao Rendesivir em culturas celulares utilizando o vírus responsável pela hepatite murina CoV de roedores identificou 2 substituições (F476L e V553L) na RNA polimerase dependente de RNA viral em resíduos conservados em todos os CoVs que conferiram uma suscetibilidade 5,6 vezes menor ao Rendesivir. A introdução das substituições correspondentes (F480L e V557L) no SARS-CoV resultou numa suscetibilidade 6 vezes menor ao Rendesivir em culturas celulares e atenuou a patogênese do SARS-CoV num modelo de camundongo.

O desenvolvimento de resistência do SARS-CoV-2 ao Rendesivir em culturas celulares não foi avaliado até o momento. Não estão disponíveis dados clínicos sobre o desenvolvimento de resistência do SARS-CoV-2 ao Rendesivir.

Propriedades farmacocinéticas

As propriedades farmacocinéticas de Rendesivir foram estudadas em voluntários saudáveis. Não há dados farmacocinéticos disponíveis de pacientes com COVID-19.

Absorção

As propriedades farmacocinéticas de Rendesivir e do metabólito circulante predominante GS-441524 foram avaliadas em indivíduos adultos saudáveis. Após a administração intravenosa do regime posológico de Rendesivir para adultos, foi observada uma concentração plasmática máxima no final da infusão intravenosa, independentemente do nível da dose, que diminuiu de maneira rápida posteriormente com uma meia-vida aproximada de 1 hora. Foram observadas concentrações plasmáticas máximas de GS-441524 entre 1,5 e 2,0 horas após o início de uma infusão intravenosa de 30 minutos.

Distribuição

O Rendesivir liga-se aproximadamente em 88% às proteínas plasmáticas humanas. A ligação às proteínas de GS-441524 foi baixa (2% ligado) em plasma humano. Após uma dose única de 150 mg de [14C]-Rendesivir em indivíduos saudáveis, a razão da radioatividade de 14C entre o sangue e o plasma foi de aproximadamente 0,68 aos 15 minutos após o início da infusão intravenosa, tendo aumentado ao longo do tempo alcançando uma razão de 1,0 após 5 horas, indicando uma distribuição diferencial de Rendesivir e dos respetivos metabólitos no plasma ou para componentes celulares do sangue.

Biotransformação

O Rendesivir é extensivamente metabolizado gerando o análogo nucleosídeo trifosfato farmacologicamente ativo GS-443902 (formado no interior das células). A via de ativação metabólica envolve hidrólise por esterases, que originam a formação do metabólito intermediário GS-704277. A clivagem do fosforamidato seguida de fosforilação forma o trifosfato ativo GS-443902. A desfosforilação de todos os metabólitos fosforilados pode resultar na formação do metabolito nucleosídeo GS-441524 que não é refosforilado de modo eficiente. O estudo do balanço de massa em seres humanos também indica a presença de um metabólito principal atualmente não identificado (M27) no plasma.

Eliminação

Após uma dose única IV de 150 mg de [14C] -Rendesivir, a recuperação total média da dose foi de 92%, composta por aproximadamente 74% e 18% recuperada na urina e nas fezes, respetivamente. A maior parte da dose de Rendesivir recuperada na urina foi na forma de GS-441524 (49%), enquanto 10% foi recuperado na forma de Rendesivir. Estes dados indicam que a depuração renal é a principal via de eliminação de GS-441524. As meiasvidas terminais medianas de Rendesivir e GS-441524 foram de aproximadamente 1 e 27 horas, respetivamente.

Farmacocinética em populações especiais

Sexo, raça e idade

As diferenças farmacocinéticas em termos de sexo, raça e idade não foram avaliadas.

Pacientes pediátricos

A farmacocinética em pacientes pediátricos não foi avaliada.

Comprometimento renal

A farmacocinética de Rendesivir e GS-441524 em pacientes com comprometimento renal não foi avaliada. O Rendesivir não é eliminado de forma inalterada na urina de maneira substancial, mas o seu principal metabólito GS-441524 é eliminado por via renal e os níveis de metabólito no plasma podem teoricamente aumentar em pacientes com função renal diminuída. O excipiente éter sulfobutílico sódico betaciclodextrinaé eliminado por via renal e acumula-se em pacientes com função renal diminuída. Rendesivir não deve ser utilizado em pacientes com Taxa de Filtração Glomerular TFGe < 30 mL/min.

Comprometimento hepático

A farmacocinética de Rendesivir e GS-441524 em pacientes com comprometimento hepático não foi avaliada. Desconhece-se a função do fígado no metabolismo de Rendesivir.

Interações

O potencial de interação de Rendesivir como objeto da ação não foi estudado em relação à inibição da via hidrolítica (esterase). O risco de interação clinicamente relevante é desconhecido.

O Rendesivir inibiu CYP3A4 in vitro. Em concentrações fisiologicamente relevantes (estado estacionário), Rendesivir ou os seus metabólitos GS-441524 e GS-704277 não inibiram CYP1A2, 2B6, 2C8, 2C9, 2C19 e 2D6 in vitro. Contudo, Rendesivir pode inibir transitoriamente o CYP2B6, 2C8, 2C9 e 2D6 no primeiro dia de administração. A relevância clínica desta inibição não foi estudada. O potencial de inibição tempo-dependente das enzimas CYP450 pelo Rendesivir não foi estudado.

O Rendesivir induziu o CYP1A2 e potencialmente o CYP3A4, mas não o CYP2B6 in vitro.

Os dados in vitro não indicam qualquer inibição clinicamente relevante de UGT1A1, 1A3, 1A4, 1A6, 1A9 ou 2B7 pelo Rendesivir ou os seus metabolitos GS-441524 e GS-704277.

O Rendesivir inibiu OATP1B1 e OATP1B3 in vitro. Não há dados disponíveis sobre a inibição de OAT1, OAT3 ou OCT2 pelo Rendesivir.

Em concentrações fisiologicamente relevantes, Rendesivir e os seus metabólitos não inibiram a gpP nem BCRP in vitro.

Dados de segurança pré-clínica

Toxicologia

Após a administração intravenosa (in bolus lento) de Rendesivir em macacos-rhesus e ratos, ocorreu toxicidade renal grave após curtas durações de tratamento. Em macacos-rhesus macho, a administração em níveis posológicos de 5, 10 e 20 mg/kg/dia durante 7 dias resultou, em todos os níveis de dose, no aumento médio do nitrogênio ureico (uréia) e no aumento médio da creatinina, atrofia tubular renal, basofilia e cilindros, bem como uma morte não planejada de um animal ao nível de dose 20 mg/kg/dia. Em ratos, a administração a níveis posológicos >3 mg/kg/dia durante períodos até 4 semanas resultou em evidências indicativas de lesão e/ou disfunção renal. As exposições sistémicas (AUC) ao metabolito de Rendesivir circulante predominante (GS441524) foram 0,1 vezes (macacos a 5 mg/kg/dia) e 0,3 vezes (rato a 3 mg/kg/dia) a exposição em seres humanos com a dose humana recomendada (DHR). Foi demonstrada a presença de um metabólito principal não identificado (M27) no plasma humano. A exposição de M27 em macacos-rhesus e ratos não é conhecida. Portanto, é possível que os estudos em animais não forneçam informações sobre os potenciais riscos associados a este metabólito.

Carcinogênese

Não foram realizados estudos em animais a longo prazo para avaliar o potencial carcinogênico de Rendesivir.

Mutagênese

O Rendesivir não foi genotóxico numa bateria de ensaios, incluindo ensaios de mutagenicidade bacteriana, ensaios de aberração cromossômica utilizando linfócitos de sangue periférico humano e ensaios de micronúcleos em ratos in vivo.

Toxicidade reprodutiva

Foram observadas diminuições nos corpos-lúteos, nos números de locais de implantação e nos embriões viáveis, quando o Rendesivir foi administrado diariamente por via intravenosa a uma dose tóxica sistemicamente (10 mg/kg/dia) em ratos fêmea 14 dias antes do acasalamento e durante a concepção; as exposições ao metabólito circulante predominante (GS-441524) foram 1,3 vezes a exposição em seres humanos com a DHR. Não houve quaisquer efeitos sobre o desempenho reprodutor feminino (acasalamento, fertilidade e concepção) com este nível de dose.

Em ratos e coelhos fêmea, Rendesivir não demonstrou efeitos adversos no desenvolvimento embrionário ou fetal quando administrado em animais durante a gravidez em exposições sistémicas (AUC) ao metabolito de Rendesivir circulante predominante (GS-441524) que foram até 4 vezes a exposição em seres humanos com a dose humana recomendada (DHR).

Em ratos fêmea, não ocorreram efeitos adversos no desenvolvimento pré e pós-natal em exposições sistêmicas (AUC) ao metabólito de Rendesivir circulante predominante (GS-441524) que foram semelhantes à exposição em seres humanos com a dose humana recomendada (DHR).

Desconhece-se se o análogo nucleosídeo trifosfato ativo GS-443902 e o metabólito principal humano não identificado M27 se formam em ratos e coelhos. Portanto, é possível que os estudos de toxicidade reprodutiva não forneçam informações sobre os potenciais riscos associados a estes metabólitos.

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